
As dificuldades enfrentadas por crianças que se veem obrigadas a deixar seu país e as consequências de uma educação que não contempla a diferença.
Um novo encaminhamento chega de uma escola da rede pública: mais uma criança estrangeira, com suspeita de autismo e dislexia. Entre 2011 e 2015, as/os psicólogas/os das Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Centro de São Paulo viram essa história virar rotina. Sabendo que aquela quantidade de casos não era comum, decidiram, em 2012, ir até as escolas para realizar um trabalho de sensibilização com professores e diretores e entender as dificuldades de interação e aprendizagem desses alunos.
“Desde 2016, percebemos que esses encaminhamentos diminuíram muito, mas não foi simples. A gente teve de entender o que estava acontecendo nas
escolas, ouvir os pais, perceber qual era a realidade dos dois lados. Foi um esforço grande e conjunto”, conta a psicóloga Patrícia Farina, mestre em psicologia clínica pela PUC-SP e funcionária de uma UBS, em São Paulo. Ela explica que as dificuldades de adaptação de uma criança a um novo ambiente escolar são sempre um desafio, mas no caso dos estrangeiros existem também outros, como língua e cultura, e nem sempre os professores dispõem de ferramentas ou formação adequada para vencer essas barreiras.
A diversidade sempre foi um dilema para a escola brasileira, como explica a psicóloga e livre-docente Marilene Proença, doutora em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano e professora do Instituto de Psicologia (IP) da USP. Segundo ela, historicamente, estudantes com alguma característica considerada “diferente” correm o risco de verem sua singularidade considerada doença. Seja uma deficiência física ou a pobreza extrema (quando se dizia que a criança tinha tão baixo repertório cultural, que não conseguiria acompanhar os colegas), seja porque veio do Nordeste para o Sudeste ou do interior para a capital – quase tudo poderia ser usado para considerá-las anormais. “A presença desses imigrantes na escola é um fenômeno relativamente novo, mas a patologização da diferença na sala de aula no Brasil não é novidade”, afirma Proença. Continue lendo →